13.3.09

ISTO AQUI NÃO ANDA BEM

Yap, ando numa de puxar para cima no blogue algumas das letras de músicas que escrevi há séculos... para acabar por descobrir que alguma nunca sequer cheguei a publicar.

Esta é a minha favorita. Foi escrita das entranhas, estava uma pessoa que amo muito a ser hipermaltratada por esta vulnerabilidade que temos a maioria: o dependermos da necessidade de trabalhar para viver.

ISTO AQUI NÃO ANDA BEM

Sabes como é, é um dia atrás do outro
humilhados todo o tempo, feridos e discriminados,
sem motivo e sem perdão /nem sequer alguma
fraca justificação.
Não se explica tanto ódio, esta desconsideração/
nem esta exploração,
tanto louco assassino com o dedo no botão/
tanto bófia presumido com o dedo no bastão,
e a raiva acumulada, que perdemos sem direcção
tanta força desgastada, tanta falta de visão.

Não é só preconceito essa coisa do racismo
um sistema muito organizado de supremacismo
Não está só na mente, está na condição,
na miséria, na injustiça, nas vidas de submissão,
nas leis racistas, promotoras da exclusão,
e há gente neste mundo, está claro, bem cabrão,
percorrendo mares em 'pateras' e fronteiras 'carniceras',
a sua origem um pretexto para a visão persecutória,
será que não temos todos/ todas uma história?

Isto aqui não anda bem
para ninguém
a não ser para a pequena minoria que nos rouba o sustento e a dignidade de cada dia.

Sabes como é, uma mulher
não pode ser mulher senão de uma maneira,
qualquer outra é uma rameira...
como se os homens não o fossem
ahahahah
quando na rua
só vêem 'gajas boas' onde há pessoas.
Para eles há boas mulheres, estão guardadas em casa,
e qualquer outra que não a nossa é objectificada,
e um alvo do seu desejo e agressão,
alvo "legítimo" da sua imposição.
Cúmulo da mentira, em casa também se bate,
a fachada de felicidade esconde o mau trato,
para cadea massacrada que vai levando calada,
há um dedo macho, um cobarde que golpeia,
um tiranito de trazer por casa...
pequeno facho.

Não bastava o trabalho, correr por menor salário.
Engravidas, vais p'rá rua, que má sorte foi a tua
que estes cabrões
até crianças põem a trabalhar,
sempre que o lucro o justificar:
dezasseis horas por dia, sete dias por semana, um minuto p'ra mijar,
completa instabilidade, sempre a precarizar,
nos seus call-centers, pizza-enters, fuck-donald's,
nessa merda toda em que se trabalha sem direitos.
Quando a falta de amanhã se disfarça de um emprego, estamos feitos.

Isto aqui não anda bem
para ninguém.
Se continuarmos divididos, confundindo inimigos,
cairemos desunidos.

Sabes o que é a homofobia?
Ser insultado, apagado, agredido e limitado a cada dia,
cada minuto é uma fobia,
toda a cultura te recorda quem tu és,
para ficares no teu cantinho, discretinho,
ar contentinho...
ferves por dentro, auto-infliges torturas várias,
não te reestruturas sem as forças necessárias,
da tua mente à tua vida,
da tua mãe ao teu papá,
é da escola ao trabalho,
do pensar ao blá-blá-blá,
é da TV até à rua, até à tumba e desde já:
podes estar quietinho, mas não ser nem demonstrar,
Liberdade de Expressão, só a podes imaginar,
tens que reaprender a vida, porque a vida se ocultou,
não vais viver decansado, sem saber que isto mudou.

Cobardia aliás não falta,
é o luxo dos poderosos,
e à agressão de um sistema errado,
todos estamos expostos,
qualquer um e qualquer uma pode ser discriminado/a
porque basta ter nascido ou viver do lado errado.

Se já sabes como é, então ouve, não há tempo
para sabê-lo e seguir contente,
como se nada fosse,
e não valesse o acrescento,
há que juntar todas as forças para pensá-lo
e trazer nas nossas mãos a ideia de modificá-lo.

AUSÊNCIA

Não saias d’ao pé de mim
Por muito tempo qu’ eu não aguento
És a pele que me toca
És a minha cola,
O abraço terno que me enrola
Eu sem ti fico sem mola

Se a vida te chamar
E tiveres que bazar
No regresso traz-me um pouco
Para partilhar

És o beijo que me choca
És a minha cola,
O abraço terno que me enrola
Eu sem ti fico sem mola

TUNANÃO

Musica tola, a mim não me convém
Muito menos com o cheiro a bolor que esta tem

Individualismo, sentes-te só
Reina um egoísmo que até mete dó
Toda a gente quer amigos, sentir-se bem
Que ambiente tão unido que a tuna tem


Fazer mal a outros pode ser prazer
Ensinar r e aprender abuso de poder
melhor fariam se fossem todos... ler
e saber um pouco mais da história
ganhar memória

A tuna não é

flor que se cheire
A tuna tem
o QI dum fogareiro
A tuna não é flor que se cheire
e p'ra que se calasse eu até dava dinheiro
se o tivesse...

Relogiosinho de imitação
tesourasinha e marcador na mão
a tic-tac-tic-tactear humilhação
Repete gestos muitas vezes repetidos
já no tempo do fascismo e dos pides

Comportamento de elite tola
A consciência social de uma rola
Num país afundado
E é pra não ser indelicado
Que a vida não está para hipocrisia
Há que fazer alguma coisa boa
pelo dia a dia

Se julgas que usar batina é tão especial
E andar em bando, todos de igual
Espera saíres da escola para o mundo real
Porque no mundo do trabalho serás pó
Individualismo, sentes-te só
Reina uma exploração que até mete dó
A submissão que foi por ti reproduzida
fará de ti um escravo toda a vida

É radical, sim.

VIVER DO AR
Casa, trabalho
e algo para partilhar
garantir o sustento nesta vida de azar
não sei pronde me viro
se vou ficar
se me retiro...
O gás do banho prácordar
a renda, a luz, o ar que respiro
pagar a saúde,
conseguir o corpo alimentar
o mínimo indispensável para não me degradar
não há papel na carteira
e nunca vivi do ar,
com trabalho ou desemprego, não muda a sorte do lar
basta fazer as contas para ver, não vai mudar

basta fazer as contas pra saber, não vai chegar
A pobreza ocidental não é radical

mas também faz mal.

16.2.09

SOSSEGO

Não me peças para ser claro,
eu não tenho de ser claro.
Não me exijas coerência,
eu sou contraditório como toda a gente,
e a coerência só se mede a largo prazo.
Retribuir o afecto na medida exacta do afecto
que nos dão
é uma defesa,
quando não sabíamos senão dar-nos todos,
e quase esquecemos saber como dar-nos.
Dou-me, sem clareza, contraditório,
com o mesmo coração que sempre tive,
e que venceu a prova de não se tornar
num cínico.
Dou-me, no ritmo certo do sossego
de quem não se furta, nem se oferece em sacrifício,
ao amor,
mas não suporta mais um certo lado da coisa,
chamemos-lhe a confusão,
um sentimento de abandono ou traição,
nas horas mais amargas,
uma estória estúpida que era escusada,
nas mais indiferentes.
Dou-me com um caminho meu a trilhar,
enquanto o trilho não me dou por inteiro,
pé ante pé escolho o percurso sobre as opções dos outros,
caibo ou não caibo?
e talvez um dia encontre um lugar,
que os lugares são as pessoas.
E qual é a minha escolha?
Começar do zero. Contigo, com tudo, com todos.
Dar-me sem exigir nem clareza, nem coerência aos outros.
Nem sequer que estejam certos.
Ir vivendo com o que me dão e com o que não tenho.
Nunca me contentar com o que vivo, mas contentar-me com o que recebo.
Retribuir o afecto na medida do afecto expresso. Isso é cautela e tem um tempo.
Não tem de ser o teu afecto. Sossego.
Nem quero afecto.
Às vezes não te quero.
Além disso, sinto-me bem.

14.2.09

Vamos tentar

Não preciso da tua mão na minha,
segue-me apenas com o olhar,
escolhe comigo caminhos,
vamos tentar.

11.2.09

O ritmo do real



O feito está feito,
o dito está dito,
e o tempo mina pouco a pouco a importância das coisas,
embora só a enferruge.
O ritmo disto será o meu,
ou não será,
e pode ser o de uma improvisação do chucho valdès,
porque esse me alegra as manhãs,
e faz de mim um centro,
e não a periferia da vida de ninguém,
ou o gajo dos dias de banco de outrém.

Como pode ser mais confuso regressar do que partir,
eu não sabia,
agora sei e estou preparado,
já nada me surpreende,
nem o sentir finalmente de vez,
que perdi um lugar.
Há muitos lugares.
Por vezes, muitos lugares convergem num lugar apenas.
No caos cósmico não há certo nem errado,
e o justo é apenas um conceito humano.
Sejamos humanos.
Sejamos felizes.
Só não sejamos indiferentes.
O feito está feito,
o dito está dito,
e com surpresa não há senão alegria,
a prova de que queremos viver é que ainda estamos vivos,
e não há senão o que está por fazer,
e alguns afectos,

uns entre demais,
entre os outros que temos e os que podemos buscar,
também não se apagam,
esses nem enferrujam,
podem é exprimir-se de outra forma,
ou apenas ficar adormecidos,
mas latentes.
Mas o ritmo disto é o meu,
e só o meu,
ou não seria,

e um beat apenas, esperando eternamente pelo segundo tempo
também pode ser um ritmo,
se não quisermos dançar a outro.
É como eu vejo, sinto, quero.
E eu quero muito.
E não há drama,

e nem perdi ninguém,
não me perdeste,
porque nem todas as cicatrizes são salgadas para que não nasçam flores,

mas as flores sabem de onde vieram,
e que nem tudo é sol e água,
também há pedra e sal.
E por isso são mais bonitas,
assim como nós nos tornamos pessoas melhores,
e o que mais nos faz crescer não são as boas experiências,
crescer tem naturalmente dor,
mas na fronteira com a dor também há satisfação.
Cá estamos. Vidas solitárias e vidas em comum constroem-se, descontroem-se, mudam de rumo, persistem em continuar mesmo quando não estamos cá para ver. Cá estamos.
Não me fui embora.
That's life for you. Peace 'n' love y'all :)